- É impossível! - Exclamou Eduardo com convicção.
- Se fosse impossível, Júlia ainda estaria viva cara, acorda! -
Romeu tinha razão, se aquilo tudo era real, a gente tava ferrado, do
mesmo jeito que todo grupo de adolescentes se ferra nos filmes de terror
de quinta.
Eu não conseguia discutir, o fato é que possível ou não Júlia estava
morta, e assim como ela, um de nós três seria o próximo, mas quem? O
atleta cético, o músico chapado ou eu? O pior é que eu estava me
sentindo um coadjuvante naquilo tudo, e os coadjuvantes sempre são os
primeiros a morrer.
- Aquela coisa vai voltar, cê tá me ouvindo cara?! Vai voltar e não
vou ser eu quem vai pagar pra ver - Romeu, pobre Romeu.. Ele também não
quer acreditar, vejo nos olhos dele que daria qualquer coisa pra tudo
não passar de mais uma de suas alucinações devido ao uso excessivo de
maconha. Mas não.. Era real, eu também vi caro Romeu.
- Escuta aqui Romeu, você ta chapado! Não tinha nada lá cara, você
tá tão locão que não dúvido ter sido você que deu fim na Júlia!
- Pergunta pra ele então! Ele tava lá comigo seu idiota, ele também
viu! - Seu dedo tremia apontado em minha direção, mas não mais do que
eu.
- Olha pra ele Romeu! O idiota ta em choque, ele não sabe nem onde é
que ele tá mais. Quem garante que o que deixou ele assim, não foi ver
você fatiar a Júlia? - Não Eduardo, não foi.. Eu queria dizer, mas não
conseguia, e mesmo se conseguisse, já não importava mais.
Como um sussurro, nós três ouvimos. Era o som do fim, e realmente
foi.. O fim das nossas dúvidas, mas para Eduardo, foi mais, para ele foi
o fim de sua patética vida.
Seu corpo foi suspenso, seu grande porte físico e os anos de treino
não o ajudaram, e seu tórax enfim começou a diminuir em meio aos seus
gritos de dor. Romeu correu, e correu como nunca, suas pernas andavam
mais rápido do que seu cérebro realmente achava que era possível, mas
infelizmente isso não foi bom para Romeu.
Muitos amanhã dirão que foi tudo ele quem fez, Júlia, Eduardo, Eu..
Todos vítimas de mais um adolescente com o cu cheio de drogas. A única
diferença seria a retirada dos termos de baixo calão, mas do que
importava isso agora?
Romeu, pobre romeu, eu realmente falava isso mas não sentia pena,
sentia inveja, como sempre senti, porém agora não mais pelo fato de
Romeu ser popular na escola, ou por ter a garota mais bonita da cidade..
Não, não agora.. Agora minha inveja vinha de seu pescoço quebrado
contra a escada que tropeçou ao tentar fugir, sem dúvidas a morte mais
agradável da noite. Não me julgue, antes disso pense no que Júlia e
Eduardo iriam preferir.
Já não importava mais correr, de fato quando o ví pela primeira vez
foi apenas de relance, incompleto.. Apenas um pequeno vestígio de seu
corpo, um escuro roxo esverdeado, com manchas cinzas, sua pele parecia
grudar na de Júlia, e ao se desprender, eu não saberia dizer o que era o
composto que teimava em tentar manter unidos os dois corpos.
Mas agora, agora eu o via por completo, e sabia eu que meu olhos não
me enganavam, a mente nunca mais esqueceria aquele ser, e pior do que
achei que um dia os livros teriam me preparado, era a criatura. Com um
corpo grandioso de carne, uma quantidade incontável de bocas a lamentar
em uma língua impronunciável a seres como nós e seus vários olhares de
vários olhos ao longo de seu corpo.
Inveja eu tive, inveja sempre terei de Romeu. Invejo até Julia e
Eduardo, pois desmaiei naquela noite, enquanto assimilava tal forma, e
acordei intocado. Mas apenas por fora, meu corpo pode estar perfeito,
mas minha alma hoje insana nunca será a mesma que foi, de quando
ensinava matemática para a garota mais linda da cidade e ao ignorante
atleta, antes da chegada do ciumento namorado drogado, e do inominável
ser que me assombra as noites neste triste manicômio.
sexta-feira, 13 de julho de 2018
Relato
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